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O enigma da melancolia: na trilha de seus traços


“(…) O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges” (Jorge Luís Borges)

Uma dos quatro afecções dos “humores” na antiga concepção greco-romana, a melancolia se destaca pela problemática que implica na existência humana. Enquanto dois dos temperamentos são uma forma de exacerbação do afeto - entusiasmo e raiva - afetos relacionadas à ação e outro, o fleumático, é caracterizado como apatia, ou ausência de afetos, a melancolia não é ausência do afeto, mas uma forma de afeto negativo que produz, muitas vezes, paralisia.

A poética da melancolia aponta para uma inércia estática que com frequência parece mais afeita de uma questão filosófica do que emotiva, mas longe de ser uma apatia, há algo nela de profundo pesar. O melancólico parece sofrer com seus pensamentos de uma forma muito diferente da que ocorre na neurose-obsessiva - a atividade mental do obsessivo está repleta de fantasias, enquanto na melancolia talvez seja a própria ausência destas a causa de sua dor.


Detalhe de "Melancolia I" (1514) por Albert Dürer

Uma das mais conhecidas representações dessa disposição foi a de Albert Dürer; sua gravura “Melancolia I” (1514) mostra uma figura feminina alada, sentada em uma postura de profunda reflexão, segurando um livro e um compasso. Essa obra teve grande influência no estabelecimento da relação entre a melancolia e a atividade filosófico-intelectual.

Para a psicanálise, a melancolia pode ser considerada uma das formas da psicose, onde falta a fantasia, o que deixa o melancólico diante de um mundo cinzento, sem amparo para lidar com a realidade nua. A organização fantasmática é que possibilita o direcionamento pulsional a uma meta. Na ausência desta, há muitas vezes o triunfo da imobilidade.

Uma alternativa disponível ao melancólico para organizar seu universo subjetivo passa pela atividade do intelecto, na qual esse universo pode então ser pensado e organizado, se não pela fantasia, então por categorias objetivas, científicas e matemáticas. Por esse viés torna-se possível fazer margem ao mundo, indo da imobilidade à uma atividade de caráter sublimatório que, não apenas organiza seu pensamento, mas o insere nesse próprio mundo,  proporcionando para si alguma forma de reconhecimento e existência social. 

Traços dessa posição melancólica podem ser notados na obra de Augusto dos Anjos, escrita onde a poesia é construída muitas vezes com termos que parecem mais próprios a um técnico de laboratório à beira de um túmulo:


BUDISMO MODERNO (Augusto dos Anjos)

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contacto de bronca dextra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Paraíba, 1909
Publicado no livro Eu (1912)


Na melancolia parece haver uma intensa consciência da morte, não apenas como fim inevitável, mas também como possibilidade iminente. Não à toa, pode haver um grande risco de suicídio. Esse embate com a morte é digno das mais profundas experiências filosóficas e até mesmo místicas. Para alguns pensadores, é da questão sobre a morte que teria surgido a própria filosofia.

Se, para Heidegger, a consciência da morte leva-nos a perguntar sobre o sentido da existência humana, poderíamos dizer que o melancólico sabe muito sobre a morte e padece da falta de sentido. A linguagem, na fala e na escrita podem ser suporte da sua existência, para contornar e, dentro do possível, prolongar o percurso do sujeito no encontro com esse ponto final. Mesmo na ausência de sentido ou meta, poderá encontrar para si uma função que dê abrigo ao seu viver, como um vaso a conter a terra onde a vida brota tendo a letra como semente.

"Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
(…)
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum. (…)”

“Há metafísica bastante em não pensar em nada” em “O guardador de rebanhos"(1925) por Alberto Caeiro - heterônimo de Fernando Pessoa

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