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Como se faz uma máquina de sonhar?

A notícia do dia é sobre novas tecnologias do sono. Braceletes high tech que antes apenas monitoravam atividade física passam também a registrar dados sobre quantidade e qualidade do sono (a que horas dormiu, quantas horas passou dormindo, quanto tempo em cada uma das diferentes fases do sono, etc). Que tal um colchão conectado à internet? Esse pode até controlar a temperatura do seu corpo e usá-la como despertador. Há ainda o recurso de um capacete que manipula as fases do sono a partir do som.   E todos esses dados estarão disponíveis para as empresas, para serem processados e revertidos em diferentes produtos e serviços. Um estudo publicado por Rubin Naiman em 2017 (Dreamless: the silent epidemic of REM sleep loss) indica que as pessoas têm sofrido não apenas privação de sono, mas também privação de sonhos, o que tem como consequência um aumento em reações inflamatórias, risco aumentado de obesidade, depressão e perda de memória. Diversos fatores parecem contribuir...
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Novas formas do inconsciente: O inconsciente digital

Comentário sobre o documentário “Privacidade hackeada” (The great hack - 2019) Já há algum tempo as pessoas têm desconfiado da presença da tecnologia em suas vidas. Se por um lado isso pode ser uma certa paranóia, por outro é preciso considerar que tanto a paranóia quanto a invenção de tecnologias tem em comum a imaginação, capaz de inventar maneiras de concretizar diferentes vontades humanas.  A televisão, cujos primeiros protótipos datam de 1920, por volta de 1950 já era a principal forma de influenciar a opinião pública. George Orwell temia ainda mais com relação a esse aparelho, que ele pudesse servir não apenas para divulgar informações e manipular opiniões, mas também captar sons e imagens, com o propósito de monitorar a vida dos cidadãos. Por volta de 1960 surgem as primeiras tentativas de realizar aquilo que viria a ser conhecido como internet, cujo propósito inicial era de servir a atividades militares. A conectividade silenciosa entre diferentes par...

O enigma da melancolia: na trilha de seus traços

“(…) O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges” (Jorge Luís Borges) Uma dos quatro afecções dos “humores” na antiga concepção greco-romana, a melancolia se destaca pela problemática que implica na existência humana. Enquanto dois dos temperamentos são uma forma de exacerbação do afeto - entusiasmo e raiva - afetos relacionadas à ação e outro, o fleumático, é caracterizado como apatia, ou ausência de afetos, a melancolia não é ausência do afeto, mas uma forma de afeto negativo que produz, muitas vezes, paralisia. A poética da melancolia aponta para uma inércia estática que com frequência parece mais afeita de uma questão filosófica do que emotiva, mas longe de ser uma apatia, há algo nela de profundo pesar. O melancólico parece sofrer com seus pensamentos de uma forma muito diferente da que ocorre na neurose-obsessiva - a atividade mental do obsessivo está repleta de fantasias, enquanto na melancolia talvez seja a própria ausência destas a causa de su...

Revisão: "As palavras de Freud" de Paulo César de Souza

Desde o título, esta obra provoca reflexões inspiradoras. Afinal, dado o valor da linguagem no campo psicanalítico, o que dizer das palavras escolhidas por seu próprio inventor? E quem melhor para falar sobre isso do que alguém que se propõe a ser um tradutor da obra freudiana? Paulo C. de Souza recentemente realizou a tradução de Freud direto do alemão (publicada pela Cia das Letras), textos que até então eram mais conhecidos pela versão portuguesa da tradução inglesa que, apesar de pioneira no intento de verter a psicanálise, foi criticada em seu resultado por um semblante muito técnico e médico-biológico. Com cerca de 300 páginas e 4 capítulos (mais alguns apêndices), Souza discorre sobre o estilo e a terminologia de Freud; comenta a versão inglesa (Edição Standard) e a francesa (Oeuvres Complètes), comparando suas diferentes escolhas com as palavras e conceitos do texto original alemão. Não é de surpreender que a proposta de uma tradução cuidadosa produza questões suficien...

Sobre um espelho, o que se pode saber?

Objeto de mistério e fascinação, o espelho acompanha a história da humanidade desde seus primórdios. Sua primeira forma provavelmente foi o espelho d’água. Depois surgem pedras e metais polidos que, além de serem portáteis, inauguram a reflexão na posição vertical. Por fim, com o desenvolvimento da fabricação do vidro, torna-se popular na forma como o conhecemos hoje. "A rainha foi até o espelho mágico e perguntou: 'Espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais bela do que eu?" (Branca de Neve e os Sete Anões - Irmãos Grimm) Como se sentiam os humanos diante de sua imagem refletida antigamente, apenas podemos especular ; o que sabemos é que a maior parte dos animais não consegue reconhecer sua imagem refletida e que esse reconhecimento estaria ligado à uma maior capacidade cognitiva (tais como ocorre nos grandes primatas, golfinhos e elefantes). Mesmo os seres humanos atuais, no início da vida, não realizam essa façanha. Estudos indicam que a...

Nós e não-nós

A antropologia é, para mim, um campo fascinante. Apresenta para nós o problema de como conhecer aquilo que é tão diferente em muitos aspectos que sempre consideramos valores e práticas inquestionáveis. Duas respostas fáceis diante desse dilema: idolatrar ou condenar o estranho. Fazer da outra cultura um paraíso perdido ou considerá-la um exemplar de barbárie (com a crença de que,  graças a  Deus ! , já a tenhamos superado). Uma postura um pouco mais complexa seria considerar que talvez "melhor" e "pior" não se apliquem a essa diferença (pelo menos não de forma simplista e fragmentada) o que traz uma dificuldade extra - manter a diferença significativa (evitar assim o "somos todos iguais na diferença"). Quero dizer que culturas diferentes tem problemas e soluções diferentes para seus conflitos; a tendência de focar apenas em vantagens ou desvantagens dificulta a percepção de que um aspecto está implicado pelo outro naquele conjunto de práticas como um ...