Objeto de mistério e fascinação, o espelho acompanha a história da humanidade desde seus primórdios. Sua primeira forma provavelmente foi o espelho d’água. Depois surgem pedras e metais polidos que, além de serem portáteis, inauguram a reflexão na posição vertical. Por fim, com o desenvolvimento da fabricação do vidro, torna-se popular na forma como o conhecemos hoje.
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| "A rainha foi até o espelho mágico e perguntou: 'Espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais bela do que eu?" (Branca de Neve e os Sete Anões - Irmãos Grimm) |
Como se sentiam os humanos diante de sua imagem refletida antigamente, apenas podemos especular; o que sabemos é que a maior parte dos animais não consegue reconhecer sua imagem refletida e que esse reconhecimento estaria ligado à uma maior capacidade cognitiva (tais como ocorre nos grandes primatas, golfinhos e elefantes).
Mesmo os seres humanos atuais, no início da vida, não realizam essa façanha. Estudos indicam que as crianças em geral apenas conseguem reconhecer suas imagens refletidas a partir dos 18 meses de idade. Jacques Lacan parte dessa questão para elaborar um texto seminal “O estádio do espelho como formador da função do eu (tal como nos é revelado na experiência psicanalítica)”(1949). Para Lacan, essa relação com a imagem refletida, ou, mais especificamente, a forma como ela ocorre, não se dá de forma espontânea e individual; ela depende da participação de um outro ser humano que indica a imagem como uma representação de si para um outro.
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| "Narciso" (por Caravaggio, 1599) |
A relação do sujeito com sua imagem é um aspecto fundamental de sua existência, de sua identidade e, mais ainda, das possibilidades de socialização. Nos casos em que essa função é precária, podem se produzir psicoses graves, mas também nas neuroses pode haver muito sofrimento na relação com essa imagem, com outras consequências. No clássico “Introdução ao Narcisismo” (1914), Freud já tocava nessa problemática, batizando esse importante conceito a partir da personagem que ficou conhecida pela publicação do poeta romano Ovídio, “As metamorfoses” (séc . VIII d.C).
Na história de Narciso, esse belíssimo rapaz que se enamora de sua própria imagem num espelho d´água, encontra a morte ao lançar-se ao seu encontro. O aspecto que me parece mais interessante nessa narrativa é que isso apenas acontece porque Narciso se vê, mas não se reconhece em sua imagem. Se reconhecesse, não veria a si mesmo como outro, não haveria quem tentar alcançar. Se, como diz Caetano Veloso, “Narciso acha feio tudo que não é espelho”, por outro lado, Narciso, fundamentalmente, não sabe o que um espelho é.
A especularidade é terreno fértil para a literatura. “Branca de Neve” (Contos de Grimm), “Alice através do espelho (e o que ela encontrou lá)” (Lewis Carroll) e “O reflexo perdido” (E.T.A. Hoffmann) são apenas alguns exemplos. Se por um lado a apropriação da imagem de si é, de alguma forma, fundamental para um processo de humanização, por outro lado o espelho se apresenta também como um lugar arriscado que pode aprisionar o sujeito e levá-lo à morte ou à loucura.
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| Rainha de Copas e sua especularidade são inspiração para a personagem Rainha Vermelha no universo de Alice no País das Maravilhas |
Poder ir além do espelho exige que o sujeito não apenas veja, mas também reconheça seu mundo imaginário. A dificuldade está em que, para um sujeito, este processo não é apenas cognitivo, mas também afetivo, social e profundamente inconsciente. A impossibilidade de ir além do espelho produz sofrimento, miséria e violência; um fracasso com consequências não só para um indivíduo, mas para toda a civilização. Competitividade, intolerância com a diferença, perseguição política e religiosa de caráter totalitário são algumas de suas faces.



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