A antropologia é, para mim, um campo fascinante. Apresenta para nós o problema de como conhecer aquilo que é tão diferente em muitos aspectos que sempre consideramos valores e práticas inquestionáveis. Duas respostas fáceis diante desse dilema: idolatrar ou condenar o estranho. Fazer da outra cultura um paraíso perdido ou considerá-la um exemplar de barbárie (com a crença de que, graças a Deus!, já a tenhamos superado).
Uma postura um pouco mais complexa seria considerar que talvez "melhor" e "pior" não se apliquem a essa diferença (pelo menos não de forma simplista e fragmentada) o que traz uma dificuldade extra - manter a diferença significativa (evitar assim o "somos todos iguais na diferença"). Quero dizer que culturas diferentes tem problemas e soluções diferentes para seus conflitos; a tendência de focar apenas em vantagens ou desvantagens dificulta a percepção de que um aspecto está implicado pelo outro naquele conjunto de práticas como um todo. Dizer que há um problema em julgar uma cultura pelos valores de outra não implica que todas se equivalem, cada qual tem suas consequências; do contrário passaríamos da diferença à indiferença - o fracasso total do reconhecimento da alteridade.
Uma polêmica conhecida na história da antropologia é aquela entre Margaret Mead e Derek Freeman. Mead, enquanto ainda era aluna de Franz Boas, foi a Samoa pesquisar a vida de jovens na ilha de Tau em meados da década de 20, concluindo que a "adolescência" não é necessariamente um período conturbado da vida e que os comportamentos observados em adolescentes norte-americanos eram produto de sua cultura (seu estudo foi publicado sob o título Adolescência, sexo e cultura em Samoa).
Décadas mais tarde, Freeman dedicou-se a provar que o estudo de Mead fora fraudulento, uma espécie de pesquisa sob encomenda de Boas, enviesado pelo pequeno grupo pesquisado por Mead (e talvez também pelos pré-supostos de que Samoa era um paraíso na terra), entre outras coisas. Mead já havia morrido quando Freeman publicou seus achados, a mídia abriu espaço para a polêmica, mas de forma geral Mead foi defendida por membros da Associação Americana de Antropologia. É bastante difícil comparar o que dizem Mead e Freeman, suas pesquisas foram realizadas em momentos bastante distintos, utilizando grupos distintos. Permanece a questão de como a perspectiva do observador afeta suas conclusões, problema esse que pode ser aplicado tanto a Mead quanto ao próprio Freeman.
(Para conhecer melhor essa história, recomendo o documentário Tales from the jungle: Margaret Mead)
E já que o assunto é antropologia e perspectivas, não poderia deixar de mencionar as duas plantas da aldeia winnebago que aparecem no estudo de Radin (1923), mais conhecidos pela menção que faz Lévi-Strauss a ele em seu famoso livro Antropologia estrutural (para mais detalhes consulte o capítulo As organizações dualistas existem?).
As duas plantas são da mesma aldeia. A primeira tem como referência os informantes da metade do alto, enquanto a segunda é a planta de acordo com os informantes da metade de baixo. Eu disse... mesma aldeia?
CLIQUE AQUI para conhecer mais sobre diferentes povos das Américas.
(O título desta postagem é referência ao vídeo Not knot, uma viagem pelo universo hiperbólico, sobre nós e seus espaços complementares - não-nós, procurando entender o que é um nó a partir do que ele não é)



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