A notícia do dia é sobre novas tecnologias do sono. Braceletes high tech que antes apenas monitoravam atividade física passam também a registrar dados sobre quantidade e qualidade do sono (a que horas dormiu, quantas horas passou dormindo, quanto tempo em cada uma das diferentes fases do sono, etc). Que tal um colchão conectado à internet? Esse pode até controlar a temperatura do seu corpo e usá-la como despertador. Há ainda o recurso de um capacete que manipula as fases do sono a partir do som. E todos esses dados estarão disponíveis para as empresas, para serem processados e revertidos em diferentes produtos e serviços.
Um estudo publicado por Rubin Naiman em 2017 (Dreamless: the silent epidemic of REM sleep loss) indica que as pessoas têm sofrido não apenas privação de sono, mas também privação de sonhos, o que tem como consequência um aumento em reações inflamatórias, risco aumentado de obesidade, depressão e perda de memória. Diversos fatores parecem contribuir para isso: stress, uso de drogas e medicamentos, entre outros hábitos e estilos de vida.
A partir de uma perspectiva psicanalítica porém há ainda uma outra questão a ser considerada. É notável a aproximação cada vez maior entre nossa realidade atual e os cenários antes apenas imagináveis na ficção científica. Essa conversão de fantasia em realidade faz um apagamento da fronteira que antes existia entre princípio de prazer e princípio de realidade. Se o inconsciente é uma consequência da divisão do aparelho psíquico e o sonhar é um fenômeno inconsciente, uma redução ou eliminação dessa fronteira poderia resultar no desaparecimento do sonho (bem como de outros fenômenos originados dessa diferenciação).
Resta a descobrir com que sonharão as pessoas quando todos esses processos vitais estiverem sendo induzidos e controlados por máquinas. Se seus sonhos forem tediosos, inventarão uma máquina de sonhar? Talvez surja uma nova categoria de profissionais: pessoas dedicadas a elaborar cenários fantasiosos que cada um poderá baixar e inserir em seu sonos isentos de imaginação…
Diante dessa perspectiva, retomo a pergunta que Philip Dick usou como título de sua obra (“Blade Runner”), “será que os andróides sonham com ovelhas eletrônicas?”
(A imagem é uma das geniais capas da publicação de P. Dick, pela Panther Science Fiction)

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