Comentário sobre o documentário “Privacidade hackeada” (The great hack - 2019)
Já há algum tempo as pessoas têm desconfiado da presença da tecnologia em suas vidas. Se por um lado isso pode ser uma certa paranóia, por outro é preciso considerar que tanto a paranóia quanto a invenção de tecnologias tem em comum a imaginação, capaz de inventar maneiras de concretizar diferentes vontades humanas.
A televisão, cujos primeiros protótipos datam de 1920, por volta de 1950 já era a principal forma de influenciar a opinião pública. George Orwell temia ainda mais com relação a esse aparelho, que ele pudesse servir não apenas para divulgar informações e manipular opiniões, mas também captar sons e imagens, com o propósito de monitorar a vida dos cidadãos.
Por volta de 1960 surgem as primeiras tentativas de realizar aquilo que viria a ser conhecido como internet, cujo propósito inicial era de servir a atividades militares. A conectividade silenciosa entre diferentes partes do mundo para planos de guerra proporciona ações estratégicas de importância inquestionável. A rede mundial de computadores, logo se percebeu, poderia ter um uso potencializado com a sua expansão e, combinada com outros desenvolvimentos, passou a substituir todas as outras formas de comunicação e informação. O modelo atual de aparelhos telefônicos e mesmo de televisores é o de um computador conectado à rede.
Assim se realiza o pesadelo de Orwell, já que agora todas essas atividades podem ser monitoradas e a televisão não apenas informa você das notícias do dia, ela também envia de volta a informação sobre o que você está assistindo, onde e quando. A próxima vez que você ligá-la talvez ela possa te sugerir um filme ou documentário, baseado no que agora ela julga serem suas preferências pessoais.
O mesmo ocorre com as redes sociais, uma paisagem que se modifica conforme o usuário interage. Quanto mais interações, mais ajustada fica essa paisagem, por um lado altamente personalizada, por outro um gueto onde cada um apenas vê aquilo que lhe agrada e com o qual se identifica. Considera-se que uma rede como o facebook é uma espécie de superestado. O que começou como uma empresa a prestar o serviço de conectividade para pessoas do mundo inteiro, uma forma superdesenvolvida de aparelho telefônico combinado com telegrama, fax e televisão, tem o potencial de transformar cada clique em uma valiosa informação para uso de terceiros - não apenas com intenção de vender produtos e serviços, mas também fazer levantamentos sobre opinião pública e antecipar resultados de eventos políticos para poder modificá-los.
Essa tecnologia produz uma alienação do sujeito no sentido mais próprio do termo. Suas tendências inconscientes são captadas e codificadas sem seu conhecimento e depois revertidas em modificações de seu ambiente virtual para propósitos alheios. Pouco a pouco ocorre um estreitamento de sua visão sobre as possibilidades, seu passado é peneirado e usado para projetar um futuro muito familiar, onde opera escolhas com uma sensação de liberdade, ali onde sua própria ‘liberdade’ foi desenhada e tolhida.
Esse Super Big Brother é um Outro sem barra, infiltrado em todas as esferas cotidianas. Para barrá-lo se inicia o movimento “direitos aos dados são direitos humanos”, com a esperança de devolver às pessoas uma autonomia sobre seus dados e o que é feito com eles. Uma longa e necessária caminhada se projeta nessa luta. A grande dificuldade em limitar o acesso e o abuso desses dados se dá pela sua virtualidade - como garantir que dados tenham sido de fato apagados, quando é tão fácil fazer cópias deles?
Se o Outro algum dia sonhou, seu sonho foi desmaterializar-se.

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